quarta-feira, 26 de março de 2008

Gustavo, Eduardo e a célula terrorista de Niterói

Já falei que ando pensando demais, crente que existo. Noves fora zero, a cabeça voltou a Niterói, eu, aos 9 anos, ditadura comendo solta, lá pelos idos de 1975. Por que eu lembrei imediatamente que a dita tava por perto? Porque uma vez fui a mentora intelectual de uma versão sacana do Hino Nacional, cantada por mim e minha galera, de fuça pra bandeira que eu sonhava um dia hastear no colégio; claro que fui descoberta; e a professora trancou esta terrorista e sua célula subversiva numa sala e nos obrigou a escrever umas 100 vezes no quadro: "Não devo desrespeitar o Hino Nacional". Não avisou à mãe de ninguém, as pobres quase infartaram quando a Kombi da escola chegou sem nóis de tarde, e deu um rolo enorme.

Mas o que realmente importa é que lembrei do Gustavo. Nove anos também. Olhinho puxado. Cabelo lisinho, lisinho, castanho claro, que, em contraste com meus cachinhos escuros, me viraram a cabeça. E eu virei tanto a cabecinha pro trastezinho júnior, que a vida foi seguindo e acabei conquistando o fofo. A certa altura, o baby-bofe vivia de correr pra perto da minha célula terrorista no recreio, me tascar um beijo na bochecha e sair correndo.

Eu não gozava ainda, é fato. Mas hoje sei que o tanto que meu coração batia no beijo roubado equivale a um daqueles orgasmaralhaços, múltiplos. Ah, sim, também foi em Gustavo que dei meu primeiro beijo na boca. Bitoca, estalinho, sei lá mais que nome tem. Atrás do auditório da escola. Num tempo em que eu ainda nem sabia que precisava de língua pra beijar.

Ele: Cê sabe dar beijo na boca?
Eu: Claro.

E, antes da tal da bitoca, estalinho ou sei lá, fizemos um bico daqueles de menina passando batom, roubado da mãe, pela primeira vez.

Tudo lindo. Até que o melhor amigo dele, Eduardo, que, por sua vez, era meu melhor amigo, se apaixonou por mim. Tempo foi passando; Gustavo foi me deixando com cara de mané no recreio, crente que ia levar beijo pra mostrar à célula que eu era a líder; Eduardo foi me pegando no pé, me irritando; e eu fui ficando confusa.

Um belo dia, último daquele ano, Gustavo me chamou pra "trás do auditório", senha, segundo eu mesma, pra beijo na boca sem língua.

- Te chamei aqui porque o Eduardo me pediu pra te perguntar se você quer namorar com ele.
- Não, eu quero namorar com você.
- Mas eu não quero namorar com você.

Pano rápido.

P.S.: Só agora, escrevendo isso aqui, é que lembrei o que fiz pra dar meu jeito de não enlouquecer, desgraçada que me achava ser antes de completar a primeira década no planeta: arrumei um diário e escrevi o verão inteiro.
P.S.1: Nem sei o que dizer nesse outro P.S.

Cresceu na mão, tô correndo

Intão, como diriam os paulistas, uma gente que mora no meu coração... Muito já falei desta alma que sofre, deste coração que não bate, apanha, aqui. Só não falei a coitada da verdade absoluta: o bicho cresceu na mão, tô correndo.

É assim, ó. Andei deprimindo, deprimindo de tanta dureza e tanto projeto que resulta em tiro nos dois pés, fiquei relendo este raio deste blog. Aí, fui me apavorando com a minha capacidade de rasgar a alma em público no início do ano. Pra piorar, motivo do blog já enterrado em bom passado, tô em cima do prazo de fazer isso tudo virar livro. Resultado? Um milhão de coroas tchecas pra quem adivinhar: deu um medão, que abotoei o cérebro, não consigo tocar nem o blog, nem o livro, e, de quebra, inda emputeci meu público querido e amargo uma culpa cristã de enlouquecer.

Ah, sim, falei que não consigo manter a adiadíssima dieta por mais de 15 minutos? Pois é.

Pronto. Desabafei.

E voltei. Eu, o Roberto e o cachorro que sorri latindo.

P.S.: Quanto ao youtubão aí em cima, tenho a seguinte teoria: se é pra ser brega, tem que ser brega de jeito. Essa pérola é um autêntico calouro-exportação do Raul Gil, cantando "O Portão", aquela do "eu voltei, agora pra ficar", etc, etc, etc, homenagem a um enrugadíssimo Erasmo Carlos, que acompanha o mané sacudindo a cabeça. Sei lá, achei que fazia o maior sentido nesse abril, que ainda não chegou e que, por isso mesmo, vai demorar a acabar - como esse ano, que, como sabemos, não acaba nunca.

segunda-feira, 10 de março de 2008

A Rodoviária de Minas sem o Rei

Segundão. 5h14. De volta de uma viagem infernal a Minas, com o mundo familiar me lembrando como sou desgraçada e derrotada por estar tão dura, sem emprego, etc, etc, etc. Primeira ida depois do Natal, nem o Rei, nem La Pitanga, nem Gil deram as caras na TV do boteco da Rodoviária. Mau humor republicano.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Já contei aqui que sei falar ao contrário? Siop é, ierbmel ossid aroga. Iof lam, êa. Át adof

O plantão do Sua Excelência... informa:

Vaca Loura (Blond Bitch, no idioma dos mané), ao que parece, diz a vendida da CNN, ganhou em Ohio e no Texas. Saco. Bem dei um tapa na mesa agora, que me torceu o raio do pulso. Era pra ser só um tapinha, assim, de protesto, cenográfico. Errei na mão, literalmente, e a pata direita agora dói.

Quero meus óculos fashion a-go-ra. Eu sei que a eleição americana não tem rigorosamente nada a ver com minha rotina aqui no Largo do Machado, mas vamo combinar que é imensamente mais fácil de lidar que minhas ziquiziras históricas, especialmente as do início deste ano que não acaba. (*)

Mau humor industrial.

(*) Uma vez falei isso pro analista que despachei, por absoluto medo das fichas que tavam caindo, ano passado. Resumindo, falei que jornalista é bicho que é capaz de resolver o processo de paz no Oriente Médio, mas que não dá conta do imbróglio familiar mais banal. "Amor, hoje eu quero dormir cedo porque, olha só, o Bush deu apoio à Colômbia, aqueles escrotos. Babe, o Bush só tá arrumando motivo pra sacanear o palhaço do Chávez... Sério... Também, os caras dão mole...", dito assim, na cama, de ladinho, bracinho dobrado sob a cabeça, achando que o interlocutor tá interessadésimo no destino do raio da América do Sul.

Enfim, ele, o terapeuta, achou uma abordagem suuuper-cabível, eu fiquei orgulhosa do meu cérebro brilhante e corri o mais rápido que pude dele, claro, certa de que quem cai na minha conversa não é merecedor de atenção. Pronto, falei.

Pois é.

Lembrei disso agora, enquanto a minha vida despenca, o preço do ovo na Sendas me assusta e me faz optar pelas embalagens pobrinhas, ando trocando filé de salmão por filé de merluza e fico aqui preocupadaça com o mala do Obama.

Por que, meu Deus, por quê?

terça-feira, 4 de março de 2008

E o raio do Réveillon Fora de Época? Aberto à votação. Enquanto isso, vou aqui vivendo de enrolar meus queridos Caixa, Itaú e Mastercard

Tá bão, tá bão, tá bão, eu sei, eu sei que fui eu que enrolei. Mas, como diz uma amiga minha, esse barraco tem regulamento. Vamo votar aê qual o melhor dia pra esse raio de Réveillon Fora de Época, que tá entrando março, e eu continuo danada com esse 2008.

Como se nada mais faltasse me acontecer antes da Semana Santa desse ano esquisito, hoje, depois de enrolar décadas (pois é, tenho essa mania) fingindo que não preciso de óculos, sucumbi à total cegueira que tem me assolado nesses tempos de blog, livro, revisão e tradução de textos. Baixei oftalmo outro dia e adentrei uma ótica hoje, a Donc, aqui perto do, adivinhem?, Largo do Machado. Resultado: uns óculos suuuuuuper-fashion e menos 360 reais no bolso. Isso porque pechinchei o quanto pude com o moço da loja e saí toda orgulhosa depois de encomendar meu brinquedinho todo muderno, que há de me ajudar a fazer charme no Jô quando isso aqui virar livro.

Mas o que me parte, mesmo, o coração é pensar nos coitadinhos do Itaú e da Mastercard: mais um mês sem ver meu dinheiro. Aun (com beicinho). Ah, sim, e tadinha também da moça da Caixa, que outro dia me ligou ameaçando encerrar minha conta só-por-que meu cheque especial, já estourado, tava mega-hiper-blaster-explodido em 40 reaus. "Ameaçando", assim, no maior carinho, juro. Foi super-fofa quando eu falei "olha só, eu sei que 40 reais não é nada, mas vamos economizar o meu e o seu tempo: não tenho dinheiro, simples assim". Acho até que ela embargou a voz quando falou "não, não, 40 reais é muito dinheiro". Ok, os cínicos vão achar que a traste tava era debochando, e que me esculhambou pra turma dela no banco no instante em que desligou o telefone. Mas ando precisando voltar a acreditar na humanidade, caguei. Ih, lembrei, a jovem do Itaú também foi um amorzinho quando repeti a mesma ladainha. Uma gente muito gente, tá?

Quem não é gente é a turma da Mastercard. Mas ainda num tô preparada pra falar dessa relação. É uma gente fria, treinadinha, sem sangue nas veias e sem coração, diria até canalh... Não, não vou cair na tentação. Pieguice não está na minha lista de defeitos - se alguém aí discordar, enfio a mão, que num tô boa hoje, ainda chafurdando aqui sem óculos fashion, que ainda num tá pronto.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Não, não morri, só baixou cabocla ingrata, perdoem. Em compensação, a miséria assola o Largo do Machado e, agora, não paro de ouvir Madonna

Tá, tá, eu devo admitir: foi me dando uma certa paúra de ficar remoendo essa dor de corno por muito mais tempo. Aí, fui ali e voltei e percebi que se passaram dois meses, a vida já deu voltas espetaculares, o estrago feito na virada do ano já tá é quase curado e acabei descobrindo que só tem uma coisa pior do que ver o coração frito no xinxim: ficar dura que nem um coco, contando os tostões até o fim do mês. Noves fora, zero, o mau humor foi tomando proporções industriais e fiquei foi chafurdando em silêncio. Fui uma ingrata, foi mal.

Como se não bastasse ter enjoado de encarnar o tatu triste, recebi a cabocla Dura, Dura e Meia e me mandei pra Casa & Video outro dia. Saí com um MP3, comprado em 157 vezes no que me sobrou do cartão, só de raiva, e, depois de testar com a música que eles mandam de brinde, agora não paro de escutar “Like a Virgin”, da Madonna, ser que sempre desprezei, mas que agora tá fazendo todo o sentido na minha biografia. Num tô nada bem.

P.S.: Alguém avisa aí pra moça do Itaú parar de ficar ligando pra cobrar a parcela da dívida do cheque especial, não vai rolar nem tão cedo. Já, inclusive, avisei, mas ela ou não acreditou ou morre de saudade de mim, me catando toda semana.

P.S.1: Na boa, acho que, se eu morrer hoje, o Itaú e a Mastercard abrem falência, inda convocam coletiva pra lamentar a perda daquela que foi sua maior devedora.

P.S.2: Quando esse blog virar livro, vou ter que vender uns 389 mil exemplares pra dar paz ao povo do Itaú e da Mastercard, coitados.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Sua Excelência..., o livro

Acabei não contando direito. Vou, mesmo, virar livro. Pela editora Litteris. Me aguardem.

"Manucu, mané"

O crédito não é meu. É de uma amiga querida. Tudo de bão. É assim, ó: ficou furibundo (a) com alguém?

"MANUCU, MANÉ".

A vida não faz sentido. Eu é que insisto

Ressaca industrial. Acho que foram, sei lá, umas 237 caipivodcas. Quanto é, mesmo, que dá 2 + 2? 5, né? Como diria o ET: "Ouch" ("Ai").

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

"Dona Rozana, a senhora precisa tirar a roupa do varal"

Vida no mais absoluto caos financeiro e profissional (vou dar um tempo no caos afetivo, senão o cachorro do editor mané me chama de "mal amada" de novo), desenvolvi a estranha mania de, sempre que chove, não recolher a roupa do varalzinho que fica embaixo, do lado de fora, da minha janela da sala. Sei lá, deve ter a ver com o urubu que me vigia do prédio vizinho há uns, eu diria, dois meses, uma coisa meta-rubronegra.

1h30 na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, a chuva tá comendo solta lá fora. Eu sei, eu sei, podia ser pior, podia estar chovendo aqui dentro. A má notícia é que a boa Lourdes vem hoje de manhã pra faxina quinzenal, e lá vou eu tomar esporro de novo: "Dona Rozana, a senhora precisa tirar a roupa do varal".

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

"Carioca mal amada"

Tá, eu sei, eu sei, eu sei que sumi, sem motivo aparente. Foi mal. Perdoem, perdoem, perdoem, misericórdia. Mas acho que fiquei foi no trauma depois de ser chamada de "carioca mal amada" por certo editor de certa publicação dominical.

Pra quem não viu certo jornal carioca no último domingo, foi o seguinte:

Há algumas semanas, uma repórter, toda fofa, me procurou pra fazer uma matéria de mulheres que criaram blogs como este ou similares. Lindo. A entrevista foi ótima. E, de quebra, iria, como o fez, divulgar o livro que lanço ainda este ano, baseado no blog - depois, conto direito. Bacana, não tivesse o trastezinho do chefe dela achado que fazia o maior sentido do mundo botar todas no mesmo saco e tacar na testa a alcunha de "cariocas mal amadas", o que, no planeta freudiano dele, deve equivaler a certa senhora que o gerou há algumas décadas.

Pensei em me rasgar toda, esculhambar, babando de indignação. Depois, achei melhor deixar quieto: a chance de o sujeito continuar não entendendo o que se passa era tão grande, que a emenda poderia ficar pior do que o soneto.

Foi isso.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Antropofagia no Largo

Desculpem a intimidade, mas num tô me güentando, auto-estima elevadíssima. Acabei de descobrir um sabonete líquido de chocolate sen-sa-cio-nal, a 4 reaus e 99 - pois é, já fui uma mulher chique.

Fato é que tô aqui quase me lanchando, com vontade de enfiar uma cereja em cada ouvido e sair disfarçada de mousse pelo Largo do Machado pra ver o que acontece. Vai que tem vaga de sobremesa em algum boteco por aqui, meu orçamento não anda nada bem.

Virou hors concours

Galera, por absoluta aclamação dos votantes presentes, o traste do post anterior sai da disputa pra brilhar no posto de hors concours. Que venham os candidatos menores, portanto.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

“Além de chata, você tá muito magra”. Diagnóstico: câncer

Aviso aos sensíveis demais que a história que passarei a relatar é de embrulhar o estômago. Tirem agora as crianças de perto do computador.

Foi assim:

Nossa narradora define a época do ocorrido como uma "fase bem difícil da minha vida: três filhos, separada, trabalhando que nem uma louca e apaixonadíssima pelo meu traste."

Como o que pode piorar quase sempre piora, começou a emagrecer mais do que merecia. Desmaiava. Baixou médico. Câncer de mama.

Mas achou que tinha um porto seguro. Ãrrã, ãrrã: "Após ler meu exame, ele não atendia mais o telefone e ainda me segredou algum tempo depois: 'Perdi o tesão por você. Além de chata, você tá muito magra'. Ele não tinha coragem pra ficar ao meu lado, e eu deveria ser compreensiva."

Passo seguinte: a cirurgia, processo que ele não acompanhou; nem visita fez.

"Um belo dia, tava saindo desolada pra fazer minha primeira sessão de quimioterapia, e o telefone tocou. Era o traste. Meu coração aos pulos: 'Vamos sair?', o que sempre queria dizer 'quero te comer'. Respondi que não poderia, já tinha horário marcado no Inca. O meu traste solidário me afirmou que não poderia ir comigo ao hospital (pro motel podia), mas que, assim que terminasse, que ligasse para ele. Fazia questão de ir me buscar."

"Ele me ama", pensou.

"Passei mal, e vomitei como uma vaca (nem sei se vaca vomita, mas era essa sensação). Eu era a única paciente sem acompanhante, mas me sentia importante já que meu 'amor' dali a pouco subiria aquelas escadas e me salvaria de tudo como um príncipe encantado. Mesmo sapo eu já tava aceitando. Não tava em condições de escolher muito."

"Quando a quimio acabou, telefonei pra ele meio grogue, com a roupa vomitada. Do outro lado, a resposta: 'Sabe o que é, meu bem, eu tive um problema muito sério'. Fiquei por segundos pensando: a mãe morreu, a filha sofreu um acidente, a Casa Branca foi atingida pelo Osama, sei lá. Do outro lado, com uma voz suave, ele disse: 'A minha cachorrinha tá com cistite, não posso deixá-la sozinha. Você entende, né? Pega um táxi, que depois eu pago.'"

"Peguei um táxi, e, na minha mente, que rodava mais que os casais no bolero em que Elis Regina toma uísque com guaraná, só pensava 'cistite da cachorra, cistite da cahorra...'. Ao mesmo tempo, refletia sobre as leis penais e os homicídios necessários. Chorava igual a uma louca e não sabia se era por ele, por mim, ou por pena do motorista de táxi que me acalmava, contando um milhão de casos de pessoas que não morreram de câncer."

"Duas semanas depois, ele me procurou, e, quando atirei a cachorra na cara dele, ele disse que, apesar de me amar, achava que eu não tinha coração, a bichinha tava sofrendo..."

"A pior parte? Às vezes, ainda penso nele. Ah, o táxi? Ele nunca pagou."

Pensei em alguma frase de efeito pra encerrar esse post. Mas não consigo. Simplesmente não consigo.

Lançada a candidatura da anta pro concurso Traste dos Trastes.

Já tomei bronca! Misericórdia, peço, misericórdia!

Atrasadésima. Enroladíssima. Envergonhadaça. Tá entrando! Tá entrando! O post do traste-candidato já vai pro ar.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O plantão do Sua Excelência informa:

Daqui a pouco, retomo a postagem dos trastes alheios pra retomar a eleição do Traste dos Trastes.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Bye, bye, Roy Scheider

O clipe aí de cima é a cena final do "All That Jazz", que é o encontro do personagem com a morte, uma alegoria do diretor, Bob Fosse, para os problemas cardíacos que acabaram matando o próprio, oito anos depois do filme. O ator, Roy Scheider, foi encontrar o amigo no domingo.

O refrão arrepia: "I think I'm gonna die; bye, bye, my life, good bye" ("Acho que vou morrer; tchau, tchau, minha vida, adeus").

E, ah, sim, tem um trecho que diz assim: "I'm through with romance, I'm through with love, I'm through with counting the stars above..." ("Tô legal de romance, tô legal de amor, tô legal de ficar contando as estrelas...").

Pano rápido.

Yes We Can: desagravo a mim mesma + esse tal desse Obama vai dar trabalho

Fiquei quietinha uns dias, o povo me jurou de morte. Não posso achar que ninguém agüenta mais a minha ladainha, meu Deus do céu? Enfim, conversa vai, conversa vem; frila vai, frila vem; dei de cara com uma chatice duma matéria pra traduzir pra certo jornal daqui do Rio. Um clipe que um povo cabeça americano fez pro tal do Barack Obama, sobre quem só tenho lido nas mesmas matérias que venho traduzindo pro tal do jornal. Confesso que, ex-telespectadora assídua da CNN, andei montes pras matérias de TV da campanha presidencial nos Estados Unidos. Ando chatinha, eles também andam chatinhos, e eu ando preferindo, nessa ordem, o blog, minha vodka e um DVD vez ou outra.

Mas morri de curiosidade hoje e fui ver o raio do tal do clipe, enjoada que estou da minha bobajada de sempre – tá, tá, trata-se de um bloqueio criativo, já sei.

Não quero apavorar ninguém, não, mas, esse mané vai dar trabalho, o tal do Obama (um dia, tenho certeza de que vou errar e vou mandar um S no lugar do B e vou acabar demitida).

Aí, me ocorre, já botei meu coração e minhas tripas aqui nesse blog, portanto, admitir que me preocupo horrores com o que se passa ao Norte do planeta é pinto. E, como a gerente da Caixa hoje me ligou pedindo pra eu depositar 40 reaus na minha conta vermelhíssima no cheque especial, e eu falei que não ia dar, não, falar da democracia ianque me pareceu tarefa das mais fáceis. Senão vejamos:

O tal do Obama fala bacana e lembra o falecidíssimo, baleadíssimo, trastíssimo Kennedy, que, como sabemos, comeu uma parte considerável das gostosas de então, tendo a seu lado a Primeira Dama mais charmosa que aquela terra de mané já teve – inlcuindo uma certa Marilyn Monroe, que há quem jure que foi envenenada por saber demais e por ter dado mais do que devia pro clã.

Pior, o tal do Obama é nigérrimo, o que faz os ativistas de plantão imediatamente associarem sua imagem à do Martin Luther King, Jr, embora o candidato de agora não tenha nada com isso no que diz respeito ao movimento dos direitos civis naquela terra estranha.

Tem mais: embrulha com os discursos que faz uma tesezinha frágil, coitada, que dá conta de que o país precisa de união do povo contra o "sistema", colocando-se à esquerda num país em que nem sei mais se existe esquerda (tá bom, tá bom, aqui também o conceito do que não é direita nem centro já se perdeu desde que certo trabalhador subiu a rampa e desenvolveu a estranha mania de se auto-proclamar inocente e mal-informado, tadinho).

O bichinho, o tal do Obama, ainda inofensivo, proclama-se a voz dos oprimidos, e eu tenho a estranha sensação de que aquele inglês empolado dele e o tique de levantar a mão direita, viradinha pra dentro, polegar grudado no indicador, doce, doce, vai botar a ONU no bolso se for eleito. A boa notícia pode ser que ele quer dialogar com o Irã, demonstração teórica de que é um cara legal. Resta saber o conceito dele de "diálogo". Outra boa notícia é que os destratores do dito dizem que ele é muito rock'n roll, muito, adaptando pra nós, "uma idéia na cabeça, uma câmera na mão", com programas pouco definidos, o que, considerando aquela gente, vamo combinar, é lucro.

Ah, sim, ele fala no ritmo sincopado típico dos afro-americanos. Vou logo avisando que sou meio neguinha, portanto, se alguém me chamar de racista, o tempo vai fechar, vai ficar pretíssimo; afro-nigérrimo! Enfim, acabo de lembrar que, quando vagava sozinha pelas ruas de Nova York, quando tinha dinheiro pra isso, ficava ligada nos barulhos e, principalmente, nas vozes da rua. Quando vinha alguém atrás de mim, ficava apostando com meu anjo da guarda: é branco; é preto ("preto" pode? se não puder, também, sinto muito , que não tô boa hoje). Nunca errei.

É sério, os afro-americanos, não importando o sotaque regional que tenham, simplesmente falam num ritmo diferente, apaixonante. Se botar uma bateria atrás, vira hip hop. Se botar um pianinho, um contrabaixo, vira jazz. Se o Mississippi passasse ali, virava variante de "Old Man River" imediatamente – é aquela canção que todo negão da época do Tom Sawyer cantava, enxada na mão, pra água que corria e pra algum barcão, com aquelas rodonas enormes, fulo, com toda a razão do mundo, com o senhor de engenho de lá.

De novo, galera purista, dá um tempo, chamei de "negão" no maior carinho - aliás, já contei aqui que um mané branquíssimo me cantou uma cantiga indígena à beira do mesmo rio, e eu gamei no pateta, que tinha por diversão brigar com a Ku Klux Klan, currículo nobilíssimo, porra.

Fato é que o discurso do Obama é tão sincopado que o tal do Will.i.am, do Black Eyed Peas, pegou o discurso dele reconhecendo a derrota pra Hillary em New Hampshire e fez um clipe.

Tomem aí a letra do dito. Na verdade, eles pegaram um pedaço do discurso, adaptaram um trecho que o manezinho do Obama improvisou do texto distribuído à imprensa e mandaram um som por cima. Ix-pe-ta-cu-lar. Chega a fazer a gente acreditar que o hino nacional americano, em 2009, vai mudar de ritmo, vai fazer soldadinho se sacudir todo, com os ombrinhos sacolejando de lado, no contratempo do hip hop, pra-cima-pra-baixo, pra-cima-pra-baixo, comigoooooooooo, everybody, now, brother...

Yes We Can (sem vírgula, mesmo, não me perguntem o porquê)

"It was a creed written into the founding documents that declared the destiny of a nation. (Foi uma espécie de credo estabelecido nos documentos de independência que declarou o destino de uma nação)

Yes we can. (Sim, nós podemos)

It was whispered by slaves and abolitionists as they blazed a trail toward freedom. (Foi sussurrado pelos escravos e abolicionistas enquanto eles abriram caminho, a ferro e a fogo, em direção à liberdade)

Yes we can. (Sim, nós podemos)

It was sung by immigrants as they struck out from distant shores and pioneers who pushed westward against an unforgiving wilderness. (Foi cantado pelos imigrantes enquanto eles se despencavam de litorais distantes e por pioneiros que foram para o Oeste, lutando contra uma selvageria sem piedade)

Yes we can. (Sim, nós podemos)

It was the call of workers who organized; women who reached for the ballot; a President who chose the moon as our new frontier; and a King who took us to the mountaintop and pointed the way to the Promised Land. (Foi o chamado de trabalhadores que se organizaram; de mulheres que lutaram pelo direito ao voto; de um presidente que escolheu a lua como a nossa nova fronteira (= Kennedy); de um Rei que nos levou para o topo da montanha e nos apontou o caminho para a Terra Prometida (= Jesus)

Yes we can to justice and equality. Yes we can to opportunity and prosperity. Yes we can heal this nation. Yes we can repair this world. Yes we can. (Sim, justiça e igualdade: nós podemos. Sim: oportunidade e prosperidade: nós podemos. Sim, nós podemos curar as feridas desta nação. Sim, nós podemos consertar esse mundo. Sim, nós podemos.)

We know the battle ahead will be long, but always remember that no
matter what obstacles stand in our way, nothing can withstand in the way of the
power of millions of voices calling for change. (Audience: We want change, we want change...).
(Sabemos que a batalha à nossa frente será longa, mas, lembrem-se, não importa que obstáculos estejam a nossa frente, nada vai atrapalhar o poder de milhões de vozes exigindo mudança – público: "queremos mudança, queremos mudança")

We have been told we cannot do this by a chorus (...) who will
only grow louder and more dissonant. We've been
asked to pause for a reality check. We've been warned against
offering the people of this nation false hope.
(Nos disseram que não podemos fazer isso sendo um coro que vai ficar tanto mais alto quanto dissonante. Nos pediram para parar para um banho de vida real. Fomos alertados para não oferecer ao povo desta nação falsas esperanças)

But in the unlikely story that is America, there has never been
anything false about hope.
(Mas na sempre imprevisível história dos Estados Unidos "falso" é algo que não combina com esperança)

And the hopes of the little girl who goes to a crumbling school in Dillon are the same as the dreams of the boy who learns on the streets of LA; we will remember that there is something happening in America; that we are not as divided as our politics suggests; that we are one people; we are one nation; and together, we will begin the next great chapter in America's story with three words that will ring from coast to coast; from sea to shining sea: Yes. We. Can." (E a esperança de uma menininha que vai para uma escola caindo aos pedaços em Dillon é igual aos sonhos do garoto que aprende algo nas ruas de Los Angeles; vamos lembrar de que está acontecendo algo nos Estados Unidos; que não estamos tão divididos quanto nossos políticos querem nos fazer acreditar; que somos um único povo; que somos uma única nação; e que, juntos, vamos começar o próximo grande capítulo da história dos Estados Unidos com três palavras que vão ecoar de costa a costa, de um mar a outro: Sim. Nós. Podemos.)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Eu, na foto pra CIA do Irã, em 2006, com o humor de hoje. E olha que nem tem agente aqui achando que eu sou americana por conta do meu inglês ianque

Iansã 1 x 1 Iemanjá

O reloginho do computador me informa: 1h15. Não importa. O que importa é que a chuva que tá caindo me lembra de quando era menina, em Niterói, e esperava a água desabar pra sair de bicicleta São Francisco, meu bairro, afora, com tempestade na fuça, pra desespero da minha mãe.

Sem coragem de descer pra ensopar o corpinho aqui no Largo do Machado, devo dizer que vou me deleitar com a lembrança da infância deitando na minha cama de casal enorme, na diagonal, braços esticadíssimos, sem macho pra me empurrar prum lado do colchão, que, aliás, comprei com o suor do meu trabalho, em 10 prestações sofridíssimas no cartão.

P.S.: Essa coisa da chuva, um pai de santo amigo meu (pois é, eu tenho pai de santo) credita ao fato de eu ser filha de Iansã, mulé das tempestades. Mas, outro dia, uma amiga, bêbada, aqui em casa, disse que isso tudo é uma bobagem, e que eu sou é filha de Iemanjá. "Você não tem uma parada com o mar?", perguntou, enigmática. Eu confirmei que gosto de mar, sim, e lembrei de mais um monte de coisas que nem às paredes confesso, relacionadas ao Atlântico que nos banha. Ela riu, orgulhosa do tiro que julgou certeiro acerca da minha relação com o além e eu me fiz de atéia, especialmente quando perguntei pra moça por que diabos ela tava me dizendo isso: "Mandaram eu te dizer". Devo dizer que o plural do "mandaram" me irritou, mas ficou tudo por isso mesmo, e mudei rapidamente de assunto, que não tô aqui pra arrumar briga com o povo de lá.

Sei lá, deu vontade de contar.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Feliz 2008 pra nóis tudo!

Num rompante de otimismo aqui, acabo de me lembrar do nosso Réveillon Fora de Época, pra dar a 2008 uma chance de começar de novo. Quem tá dentro? Como a vida financeira anda um horror também, tô topando qualquer cerveja ou chope barato em algum lugar que não fique muito longe pra maioria. Este post está, portanto, desde já, aberto a adesões. E, sim, vou correr aqui com as candidaturas ao Traste dos Trastes, que andei meio mané durante o Carnaval, tatu triste com a corda toda.

Lembrei de imediato de um boteco bacana em Botafogo, onde tomei cerveja com a galera daqui do blog há umas semanas. Cerveja de garrafa, petisquinhos bacanas, garçom legal, cuja alcunha é Saddam, divertidíssimo. A má notícia é que não faço a mais pálida idéia de onde é. Alô, galera da cerveja, lembra aí, pls!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

A Retomada e o cheiro do ralo

Na boa, eu sei que, assim, enquanto jornalista, a nível de ser humano, um ser suuuper antenado com a minha época, sempre torcendo pelo país que eu, às vezes, abandono, mas amo demais, devo sempre, sempre, sempre prestigiar o cinema nacional; não perco de vista nunca que o tal tá em plena Retomada, etc, etc, etc, qualquer leitor de caderno de cultura de jornal sabe disso.

Agora, por favor, acompanhem meu raciocínio. Eu fiz o favor de fazer a sacanagem comigo mesma de pegar O Cheiro do Ralo pra ver nesse domingão de Carnaval. Dei de cara com o sujeito que despacha a mané da noiva, "com os convites (de casamento) na gráfica". Também dei de cara com a louca, que não lançou blog, mas partiu pra dentro do cachorro de faca em punho. Amarelou, não abateu o dito e ainda acabou internada.

Juro que contaria mais, se pudesse, mas serei, agora, obrigada a interromper esse arremedo de resenha. Relevem, por misericórdia: não me orgulho disso, mas fato é que arranquei um dos melhores exemplos da Retomada do cinema nacional do DVD player antes do "desfecho trágico" que a sinopse promete na contracapa, irritadíssima com a percepão, tardia, de que, nesse início de ano, acabo de realizar o sonho do desfecho trágico próprio.

Ato contínuo, abri a louca da geladeira e dei de cara com um vidro de maionese, intocado, que tá vencido desde 27 de janeiro e virou, imediatamente, metáfora mané do que ando conservando pelos cantos do meu puleiro, aqui no Largo do Machado, achando que ainda tá na validade. Claro que o tal já tá no lixo, e claro que eu já desci pra devolver o raio do filme e pra me atracar com um Crispy Chicken do McDonald's, único prazer que a boca há de ter nesse Carnaval.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Boletim das 21h:

Meu povo, ainda tô caidinha, caidinha. Juntando isso com o Carnaval que já é, tô espichando a apresentação de pré-candidaturas de trastes em geral até o próximo dia 10, domingão depois do Carnaval. Oremos.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O plantão do Sua Excelência... informa:

Blogueira acometida de gripe absurda, alma espirrando. Passei o dia no estaleiro. Volto amanhã, galera. Foi mal. Tá mole, não.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Segunda chamada: concurso Traste dos Trastes

Meu povo, esse post é só pra lembrar que até o fim desta semana eu vou postando aqui aos pouquinhos histórias de trastices alheias que já chegaram. Ainda dá tempo de inscrição de pré-candidaturas pelos comentários ou por e-mail pra mim (rozanemonteiro@gmail.com). Vale pra meninos e meninas.

A postagem de causos começou em 24 de janeiro. Seria bom a gente ir se movimentando pra escolher quem tem chance de ser finalista entre os que já estão aqui. Até sexta, os votos podem ser feitos nos comentários. Depois, com a lista final, vou botar a enquete no ar pra voto direto.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Traste brasileira no coração de Manhattan, seus dois namorados americanos e a cartomante de Nova Orleans


Reflexão pra cá, reflexão pra lá, lembrei de um momento absolutamente traste meu em Nova York, com um pobre dum cozinheiro americano. Resolvi contar, mas vou logo avisando que, como sou eu que mando aqui nesse barraco, fico automaticamente inelegível pra escolha do casal Traste dos Trastes. Cumpra-se. :)

Aos fatos, pois:

Houve um tempo em que eu piscava o olho, desembarcava em Nova York. A foto aí de cima tem quase 13 anos (toda mofadinha já, coitada), e foi tirada por mim a bordo de um helicóptero pra turistas, completamente apaixonada pela cidade. Torres gêmeas bonitonas, Empire State ao pôr-do-sol, só faltou o King Kong. Foi a primeira de quase umas 10 idas àquela terra.

Numa outra vez, em 1999, acabei conhecendo um cozinheiro ("personal chef", o bichinho esclarecia) num boteco do Village. Não dei logo, mas gamei. E fiquei na ponte aérea Rio de Janeiro-Nova York por um bom tempo. O manezinho chegou a vir ao Brasil. Chegou num certo 8 de setembro de 2001.

Dias depois, foi acordado por mim, com toda a calma do mundo, CNN já ligada: "Babe, teve um acidente de avião horroroso lá em Nova York; bateu numa das torres gêmeas." O resto da história todo mundo já sabe, e eu entrei de vez pra biografia do homem: ele tinha uns bicos no World Trade Center e poderia estar lá no dia do ataque. Passei o dia segurando na mãozinha dele, o pobre em choque, sem conseguir falar com a família e amigos porque os telefones tavam congestionados. Nem e-mail funcionava.

Aliás, passei o dia com ele, mais ou menos. Tive que ficar umas horas fora pra resolver um pepino no banco e pegar o dinheiro das minhas férias, já que o combinado é que eu iria pra Nova York com ele – acabei conseguindo, no meio do caos, e até mandei matéria de lá prum jornal do Rio uma semana depois dos ataques. Foi nesse tempo em que ficou sozinho que o bichinho quase enlouqueceu, desesperado, trancado dentro da minha casa. Um sujeito parou na minha rua com um megafone pra anunciar os ovos e queijos que vendia, e nosso herói, que não fala português, quase sai, segundo seu relato, com a mão na cabeça, certo de que era o FBI atrás dele. É judeu descendente de poloneses, mas com uma absurda cara de árabe branco.

Mas o que importa, mesmo, é que em 2002 ganhei uma bolsa pra jornalistas estrangeiros que me permitiu viajar por mais de 10 estados americanos em quatro meses. O combinado: como nós dois fazemos aniversário em setembro, ele passaria o aniversário dele em Washington comigo; e o meu seria com ele em Nova York. Casava direitinho com a programação da bolsa.

Pois é. Só que no meio do caminho conheci um louro de quase dois metros, celebridade na luta pelos direitos dos índios, único homem branco na hierarquia de uma tribo de Minnesota (na verdade, era uma cidadezinha no meio do nada, fundada pelos Ojibwe), e que, virava e mexia, brigava com remanescentes da Ku Klux Klan - "Rozane, eles hoje não queimam mais ninguém, mas são advogados, políticos..., ainda estão por aí", explicava.

Um milhão de grãos de milho da beira do Mississippi pra quem adivinhar o que aconteceu. Na boa, o cara cantou uma música tradicional que faz referência à cultura indígena americana à beira do raio do rio, olhando no meu olhinho: eu ti-nha que dar, foi quase uma obrigação histórica pelos ianques de bem daquele país.

Enfim, claro que me apaixonei, claro que ele também se apaixonou e claro que quis passar meu aniversário comigo em Washington, o que me obrigou a ir enrolando meu "personal chef" preferido, dizendo que não sabia mais se estaria em Washington e tal. Ele ficou tristinho, mas entubou, um tantico desconfiado.

De Nova York, não consegui escapar. É aí que começa minha trastice em estado puro. O pobre homem, depois de passar anos me tratando como uma ficante dos trópicos, me aparece no hotel com um buquê de rosas vermelhas. Não satisfeito, me levou pra jantar num dos restaurantes mais caros de Nova York – esqueci o nome agora, mas era um daqueles badaladérrimos, point de celebridade. Gastou uma pequena fortuna.

Tem mais. Depois me levou num bar super-gracinha e me apresentou como namorada, mesmo, pro barman amigo, prum outro casal, etc, etc, etc. Ele só não contava com a presença, no fundo do bar, de uma cartomante de Nova Orleans, mulher negra enorme, linda, enfiada num vestido vermelhíssimo. Desnecessário dizer que baixei na mesa da mulher, ela abriu o jogo e viu logo "um homem branco, grande, com muita paixão".

Não que precise ser cartomante num país de brancos pra concluir que uma gringa sul-americana morena desbocada, inglês fluente, iria acabar cativando um desses exemplares. A questão é que o rapaz das flores era baixinho e gorduchinho, anos-luz distante do príncipe citado pela moça das cartas, e eu já tava meio bêbada. Saí como quem acabara de ver a luz e despachei o pobre homem sem dó. A cena final foi, depois de ele não se conformar e exigir explicações, nós dois no meio da rua, eu, aos berros: "It’s over! It’s over!" ("Acabou! Acabou!").

Foi assim.

P.S.: Ah, sim, a história com o "homem branco grande" naturalizado índio durou mais ou menos um ano. Ele chegou a vir ao Brasil, mas a distância acabou com a gente.

domingo, 27 de janeiro de 2008

A dona do morro e Barrabás

Domingão modorrento, lambendo as feridas deste janeiro que não acaba, caboclo tatu triste amarrado no armário, vontade de mudar de assunto. E uma vontade ainda maior de escrever poesia, antigo hábito que o ofício de jornalista foi enterrando aos pouquinhos. Aí, fiquei quietinha aqui até o surto passar, que eu também não ia fazer essa sacanagem com vocês.

Mas lembrei duma amiga poeta. Dum verso que li há pouco tempo no blog dela (http://devaneiosliricos.blogspot.com):

"Sou vela acesa, desencontrada da procissão". Ai.

Imediatamente lembrei de outro, e tá faltando muito pouco pra eu ir pra janela gritar pro urubu do prédio vizinho, que hoje tá de folga:

"Não quero mais ser donzela, agora sou dona do morro!"

Pois é, acordei assim, com vontade de roubar poesia dos outros, com medo da minha própria.

P.S.: Alguém manda interditar a Ana Carolina, pelo amor de Deus. É eu sentar aqui, e a bichinha baixar no meu rádio. Que coisa mais infernal. Só perde pruma mala que a Paradiso bota pra cantar umas 30 vezes por dia. Tal da Ayo, que passa boa parte do hit que tá nas paradas pedindo pro sujeito voltar, "de joelhos, estou implorando, não me deixe". Por que, meu Deus, por quê?

P.S.1: Tem gente que acha que jogou pedra na cruz. Eu ando convencida de que eu era o próprio Barrabás. O bichinho tava lá, amarradão, pronto pra pagar os pecados. Foi trocado pelo filho de Deus, e acabou condenado a se danar o resto da existência. Aposto qualquer dinheiro que a anta baixou num certo 18 de setembro de 1966, 5 da tarde, no interior de Sergipe, terra que, como sabemos, só serviu pra acabar com a sanha de Lampião e parir esta jornalista que vos bloga.

Ih, tô chatinha hoje. Foi mal. Fui.

"Tu não sabe nem apanhar"

Essa veio por e-mail. De uma leitora que viveu no inferno com um traste de carteirinha há alguns anos. Traste violento, soltou a pérola do título quando o nariz da nossa leitora sangrou depois de um tapa.

Num tô me güentando! Pronto, desabafei. Fui

Eu, galinha d'Angola fofa largadona

Sabem o post do sujeito que achou bacanééééérrimo descobrir que podia "curtir transar com uma gordinha", lá embaixo? Pois é. Fez bem, não. Botei o post aqui, com a candidatura do traste, e fui imediatamente me olhar no espelho, coisa que tenho evitado, devo admitir. Um monte de carne sobrando, meu Deus. Um monte de mulé escapulindo roupa afora.

Fiz pior, fui no espelho do banheiro, luz do spotezinho fashion na lata. Fuça redonda, papo de galinha d'Angola largadona. Galinha asmática, aliás: em algum momento deste mês, abri o terceiro maço de cigarro no fim de um dia, tossi um pouco e tive a impressão de que algo estava muito fora da ordem. Fora a sensação de que, se eu fosse homem, não me pegava de jeito nenhum (tudo bem, dei bronca na narradora do post da gordinha, tô pagando a língua agora).

Tá, vá lá que seja, tenho cá meu cérebro brilhante, meu charme, meus cachinhos e meu humor ácido, coisas que, desde os tempos de moleca beijadora, foram me garantindo a lida; já iniciada na pista, por conta disso tudo, fui dando meu jeito de ir comendo gente. Mas, sei lá, fiquei mal com o post da anta alheia.

sábado, 26 de janeiro de 2008

O anão de jardim bígamo e o traste do Lênin

A protagonista hoje prefere definir o ocorrido como um espetacular "conto do vigário". Corta pra Salvador em 1967. "Amor à primeira vista", diz a moça. Um ano se passa. Estamos em 1968, "o ano das primaveras no mundo inteiro", minha amiga letrada define. Em pleno Carnaval, baile no clube Fantoches da Euterpes, viram namorados, ao som de "Eu te amo, eu te amo, te amo", do Rei, sempre ele. Só um parêntesis: alguém precisava processar o Roberto Carlos ou pelo menos denunciar o azar que dá ouvir música do fofo quando tem homem na parada.

Enfim, fato é que a vida separou nosso casal, e séculos se passaram até se reencontrarem. Em Itapoã: "Ele já tava me paquerando antes mesmo de me reconhecer". Internet já comia solta e foi um ano de e-mails "apaixonados", diz ela. "Você é a mulher da minha vida", repetia o traste, que admitia estar com uma mulher "que foi ficando, se impondo sem ele querer, do tipo que lava roupa, faz comida e ainda ouve o que não quer", na definição de nossa narradora.

Noves fora nada, em algum momento, minha amiga intelectual brilhante acabou convencida pela anta de que ele resolveria a situação e ela deveria, portanto, largar tudo e se mandar de volta pra Bahia, sua terra: "Atrás de um anão de jardim, de tão baixinho, com umas malas pra durar o que restava pra viver". O que ninguém disse à moça é que o que o rapaz queria, mesmo, era ser bígamo. Simples assim. Como se não houvesse amanhã. Ao relato da protagonista:

"Era um raciocínio brilhante, de tão simplista. Ele queria, segundo suas próprias palavras, uma mulher burra, submissa e escrava; e outra intelectual, companheira, a grande paixão. Quando não topei a história, ainda tive que ouvir que sou uma 'recalcada' e 'raivosa' porque sempre fui trocada, desde a adolescência, por professorinhas, burrinhas e escravinhas."

Em tempo: nossa leitora, sujeita politicamente seriíssima, reivindica a indicação de fantasmas históricos pro prêmio in memorian de Traste dos Trastes. Prefiro deixar o relato pra moça:

"Melhor que a minha história, só a do traste do Lênin, mas a condessa Inessa Armand não está mais viva para contar. Esse caso de amor do Lênin foi escrito pela Alexandra Kolontai, uma das mulheres mais famosas da Rússia e ex-ministra da Educação. Feminista, escreveu o livro no início do século passado, sem imaginar que iam chegar ao poder. É assim:

O Lênin, que ela chamava de "seu Senka", traía a mulher com a condessa, pobre menina rica, dizendo que ela, a mulher, era muito doente. E ainda arrumava uns trocadinhos da amante, antes de ser o todo-poderoso da União Soviética: "Deus sabe que já temos tido problemas demais. Aniuta está novamente doente, e o médico disse que ela precisa de repouso, o que significa que precisaremos de uma criada morando conosco. Mas, aí, surge o problema do dinheiro... Você sabe a nossa situação financeira..." Convencia: a pobre da condessa, cheia de culpa por ser rica, pensava que a vida parecia um purgatório para o seu amado.

Dava pra premiar fantasmas?"

"Nunca pensei que um dia eu fosse curtir transar com uma gordinha"

Nossa heroína tem 42 anos, e, segundo ela mesma, tá gorducha. "Quem sou eu pra ter preconceito, né?" - reproduzo, aqui, as aspas da moça, mas protesto: pó parar com isso, babe! Mas, enfim, fato é que, pra esquecer o "canalha sincero" que havia cruzado sua biografia, em suas palavras, ela andou "saindo com um traste nanico, metido a fodão".

No silêncio do depois, o manezinho, fofo, manda a pérola aí do título. com a palavra, nossa narradora:

"Eu tinha duas opções: morrer ou devolver a ofensa, no mesmo nível. Optei pela segunda e respondi, com o ar mais blasé do mundo, que a vida só nos prega peças. Sim, porque eu sempre detestei homem baixinho e estava alí, com ele, e nem tinha sido tão ruim assim."

Nunca mais se viram, com a graça do Dalai Lama e do Padre Marcelo.