terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Fiquei quietinha uns dias, o povo me jurou de morte. Não posso achar que ninguém agüenta mais a minha ladainha, meu Deus do céu? Enfim, conversa vai, conversa vem; frila vai, frila vem; dei de cara com uma chatice duma matéria pra traduzir pra certo jornal daqui do Rio. Um clipe que um povo cabeça americano fez pro tal do Barack Obama, sobre quem só tenho lido nas mesmas matérias que venho traduzindo pro tal do jornal. Confesso que, ex-telespectadora assídua da CNN, andei montes pras matérias de TV da campanha presidencial nos Estados Unidos. Ando chatinha, eles também andam chatinhos, e eu ando preferindo, nessa ordem, o blog, minha vodka e um DVD vez ou outra.

Mas morri de curiosidade hoje e fui ver o raio do tal do clipe, enjoada que estou da minha bobajada de sempre – tá, tá, trata-se de um bloqueio criativo, já sei.

Não quero apavorar ninguém, não, mas, esse mané vai dar trabalho, o tal do Obama (um dia, tenho certeza de que vou errar e vou mandar um S no lugar do B e vou acabar demitida).

Aí, me ocorre, já botei meu coração e minhas tripas aqui nesse blog, portanto, admitir que me preocupo horrores com o que se passa ao Norte do planeta é pinto. E, como a gerente da Caixa hoje me ligou pedindo pra eu depositar 40 reaus na minha conta vermelhíssima no cheque especial, e eu falei que não ia dar, não, falar da democracia ianque me pareceu tarefa das mais fáceis. Senão vejamos:

O tal do Obama fala bacana e lembra o falecidíssimo, baleadíssimo, trastíssimo Kennedy, que, como sabemos, comeu uma parte considerável das gostosas de então, tendo a seu lado a Primeira Dama mais charmosa que aquela terra de mané já teve – inlcuindo uma certa Marilyn Monroe, que há quem jure que foi envenenada por saber demais e por ter dado mais do que devia pro clã.

Pior, o tal do Obama é nigérrimo, o que faz os ativistas de plantão imediatamente associarem sua imagem à do Martin Luther King, Jr, embora o candidato de agora não tenha nada com isso no que diz respeito ao movimento dos direitos civis naquela terra estranha.

Tem mais: embrulha com os discursos que faz uma tesezinha frágil, coitada, que dá conta de que o país precisa de união do povo contra o "sistema", colocando-se à esquerda num país em que nem sei mais se existe esquerda (tá bom, tá bom, aqui também o conceito do que não é direita nem centro já se perdeu desde que certo trabalhador subiu a rampa e desenvolveu a estranha mania de se auto-proclamar inocente e mal-informado, tadinho).

O bichinho, o tal do Obama, ainda inofensivo, proclama-se a voz dos oprimidos, e eu tenho a estranha sensação de que aquele inglês empolado dele e o tique de levantar a mão direita, viradinha pra dentro, polegar grudado no indicador, doce, doce, vai botar a ONU no bolso se for eleito. A boa notícia pode ser que ele quer dialogar com o Irã, demonstração teórica de que é um cara legal. Resta saber o conceito dele de "diálogo". Outra boa notícia é que os destratores do dito dizem que ele é muito rock'n roll, muito, adaptando pra nós, "uma idéia na cabeça, uma câmera na mão", com programas pouco definidos, o que, considerando aquela gente, vamo combinar, é lucro.

Ah, sim, ele fala no ritmo sincopado típico dos afro-americanos. Vou logo avisando que sou meio neguinha, portanto, se alguém me chamar de racista, o tempo vai fechar, vai ficar pretíssimo; afro-nigérrimo! Enfim, acabo de lembrar que, quando vagava sozinha pelas ruas de Nova York, quando tinha dinheiro pra isso, ficava ligada nos barulhos e, principalmente, nas vozes da rua. Quando vinha alguém atrás de mim, ficava apostando com meu anjo da guarda: é branco; é preto ("preto" pode? se não puder, também, sinto muito , que não tô boa hoje). Nunca errei.

É sério, os afro-americanos, não importando o sotaque regional que tenham, simplesmente falam num ritmo diferente, apaixonante. Se botar uma bateria atrás, vira hip hop. Se botar um pianinho, um contrabaixo, vira jazz. Se o Mississippi passasse ali, virava variante de "Old Man River" imediatamente – é aquela canção que todo negão da época do Tom Sawyer cantava, enxada na mão, pra água que corria e pra algum barcão, com aquelas rodonas enormes, fulo, com toda a razão do mundo, com o senhor de engenho de lá.

De novo, galera purista, dá um tempo, chamei de "negão" no maior carinho - aliás, já contei aqui que um mané branquíssimo me cantou uma cantiga indígena à beira do mesmo rio, e eu gamei no pateta, que tinha por diversão brigar com a Ku Klux Klan, currículo nobilíssimo, porra.

Fato é que o discurso do Obama é tão sincopado que o tal do Will.i.am, do Black Eyed Peas, pegou o discurso dele reconhecendo a derrota pra Hillary em New Hampshire e fez um clipe.

Tomem aí a letra do dito. Na verdade, eles pegaram um pedaço do discurso, adaptaram um trecho que o manezinho do Obama improvisou do texto distribuído à imprensa e mandaram um som por cima. Ix-pe-ta-cu-lar. Chega a fazer a gente acreditar que o hino nacional americano, em 2009, vai mudar de ritmo, vai fazer soldadinho se sacudir todo, com os ombrinhos sacolejando de lado, no contratempo do hip hop, pra-cima-pra-baixo, pra-cima-pra-baixo, comigoooooooooo, everybody, now, brother...

Yes We Can (sem vírgula, mesmo, não me perguntem o porquê)

"It was a creed written into the founding documents that declared the destiny of a nation. (Foi uma espécie de credo estabelecido nos documentos de independência que declarou o destino de uma nação)

Yes we can. (Sim, nós podemos)

It was whispered by slaves and abolitionists as they blazed a trail toward freedom. (Foi sussurrado pelos escravos e abolicionistas enquanto eles abriram caminho, a ferro e a fogo, em direção à liberdade)

Yes we can. (Sim, nós podemos)

It was sung by immigrants as they struck out from distant shores and pioneers who pushed westward against an unforgiving wilderness. (Foi cantado pelos imigrantes enquanto eles se despencavam de litorais distantes e por pioneiros que foram para o Oeste, lutando contra uma selvageria sem piedade)

Yes we can. (Sim, nós podemos)

It was the call of workers who organized; women who reached for the ballot; a President who chose the moon as our new frontier; and a King who took us to the mountaintop and pointed the way to the Promised Land. (Foi o chamado de trabalhadores que se organizaram; de mulheres que lutaram pelo direito ao voto; de um presidente que escolheu a lua como a nossa nova fronteira (= Kennedy); de um Rei que nos levou para o topo da montanha e nos apontou o caminho para a Terra Prometida (= Jesus)

Yes we can to justice and equality. Yes we can to opportunity and prosperity. Yes we can heal this nation. Yes we can repair this world. Yes we can. (Sim, justiça e igualdade: nós podemos. Sim: oportunidade e prosperidade: nós podemos. Sim, nós podemos curar as feridas desta nação. Sim, nós podemos consertar esse mundo. Sim, nós podemos.)

We know the battle ahead will be long, but always remember that no
matter what obstacles stand in our way, nothing can withstand in the way of the
power of millions of voices calling for change. (Audience: We want change, we want change...).
(Sabemos que a batalha à nossa frente será longa, mas, lembrem-se, não importa que obstáculos estejam a nossa frente, nada vai atrapalhar o poder de milhões de vozes exigindo mudança – público: "queremos mudança, queremos mudança")

We have been told we cannot do this by a chorus (...) who will
only grow louder and more dissonant. We've been
asked to pause for a reality check. We've been warned against
offering the people of this nation false hope.
(Nos disseram que não podemos fazer isso sendo um coro que vai ficar tanto mais alto quanto dissonante. Nos pediram para parar para um banho de vida real. Fomos alertados para não oferecer ao povo desta nação falsas esperanças)

But in the unlikely story that is America, there has never been
anything false about hope.
(Mas na sempre imprevisível história dos Estados Unidos "falso" é algo que não combina com esperança)

And the hopes of the little girl who goes to a crumbling school in Dillon are the same as the dreams of the boy who learns on the streets of LA; we will remember that there is something happening in America; that we are not as divided as our politics suggests; that we are one people; we are one nation; and together, we will begin the next great chapter in America's story with three words that will ring from coast to coast; from sea to shining sea: Yes. We. Can." (E a esperança de uma menininha que vai para uma escola caindo aos pedaços em Dillon é igual aos sonhos do garoto que aprende algo nas ruas de Los Angeles; vamos lembrar de que está acontecendo algo nos Estados Unidos; que não estamos tão divididos quanto nossos políticos querem nos fazer acreditar; que somos um único povo; que somos uma única nação; e que, juntos, vamos começar o próximo grande capítulo da história dos Estados Unidos com três palavras que vão ecoar de costa a costa, de um mar a outro: Sim. Nós. Podemos.)

6 comentários:

Anônimo disse...

Tu não tem vontade de voltar pra redação????

Anônimo disse...

realmente esse clipe é uma das melhores peças publicitárias que já vi. mas, devo confessar que o obama me lembra, neste discurso, uma mistura de caçador de marajá alagoano com líder sindical do abc...
enfim, pelo menos ele ajudou minha amiga a arrumar uns trocados...
e o chop, quando será?

ROZANE MONTEIRO disse...

mirtes, sua definição é perfeita, quase me matou de rir aqui.

ah, sim, elecete, tenho vontade de voltar à redação, sim, mas queria algo mais light. não sei se tenho mais saúde pra encarar pescoção, etc, etc, etc.

Anônimo disse...

É isso oí, o Obama lembra brama... vamos beber....

Anônimo disse...

já que vc quer ficar mais light,delete a foto iraniana e troque pela charge do Liberati..

Anônimo disse...

Acho que tô bebum, falei um monte de m....fui!!!!!!!!!!!!